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quarta-feira, 23 de abril de 2014

Um festival de marxismo, o Congresso das CEBs


Gregorio Vivanco Lop

O santo sacrifício da Missa seria prejudicial à Igreja; buscam banhar-se na religiosidade popular; não é um movimento católico; é proibido “caçar” terroristas, bandidos e traficantes

Notou o leitor que o Congresso das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), sob o nome de 13º Intereclesial, realizado em Juazeiro do Norte (CE) de 7 a 11 de janeiro último, antes de sua realização se beneficiou de uma considerável propaganda midiática, e que, depois de concluído, quase não se falou dele?

Qual a razão desse silêncio post factum, sendo que as esquerdas brasileira e mundial teriam todo interesse em que se publicitassem suas conclusões?
Para responder, é preciso considerar o panorama no seu conjunto. É o que pretendemos fazer neste artigo.

Apogeu, queda e tentativa de ressurreição

As CEBs, que nos anos 70 tiveram seu apogeu, foram denunciadas no início dos anos 80 como longa manus do comunismo internacional por um livro que ficou famoso, escrito pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, juntamente com os irmãos Gustavo e Luís Solimeo, sob o título As CEBs das quais muito se fala, pouco se conhece, a TFP as descreve como são (Editora Vera Cruz, São Paulo, 1982). A abundância e a qualidade da documentação utilizada, a análise precisa e contundente dessa obra, frustraram então o plano da esquerda católica de marxistizar a cidade e o campo brasileiros. Pois, desvendados os objetivos últimos das CEBs, eles foram rejeitados pela opinião pública nacional.

Outros fatores podem ter contribuído para o notório declínio das CEBs, é claro, mas este que apontamos foi decisivo.


E assim permaneceram elas durante décadas, vegetando em seu estado cadavérico ou pré-letal, até que, no final de 2013, trombeteou-se aos quatro ventos que as CEBs ressuscitavam, como que por um passe de mágica. Segundo a propaganda veiculada para esse fim, tal ressurreição se tornara possível devido ao impulso que lhes vinha da política posta em prática pelo Papa Francisco, que quando cardeal havia fomentado sua renovação, ao presidir a comissão que redigiu o documento final do Encontro dos Bispos latinoamericanos em Aparecida, em 2007. Parecia confirmar essa assertiva, entre outros fatores, a realização, pouco antes do 13o Intereclesial, de um simpósio no Vaticano, mais precisamente na Pontifícia Academia de Ciências, com a presença de marxistas notórios, especialmente convidados, como João Pedro Stédile e Juan Grabois.

O site da CNBB anunciava exultante: “Pela primeira vez em sua história, um Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) recebe uma mensagem de um papa. No dia 17 de dezembro, o papa Francisco enviou uma carta aos participantes do 13º Intereclesial das CEBs, que tem início hoje à noite, em Juazeiro do Norte, diocese de Crato (CE), e prosseguirá até o dia 11 de janeiro”.(1)

E o “Osservatore Romano” publicava, em 10 de janeiro, uma longa entrevista com importante assessora das CEBs, a missionária xaveriana Tea Frigerio. O jornal do Vaticano colocava em realce as palavras com as quais esta religiosa parece prescindir de sacerdotes até para a celebração da Missa: “A vida de uma comunidade eclesial de base (Ceb) concentra-se na celebração dominical da Palavra feita pelos leigos. A novidade nestas comunidades tradicionais é a centralidade da Palavra a partir da qual começa a renovar-se também a pastoral. A leitura da Palavra a partir da vida compromete nas transformações sociais. Nascem as primeiras lutas por um sindicato livre que, livre da sujeição aos latifundiários, se torne instrumento de justiça”.(2)

Ora, a ressurreição – ou, caso se preferira uma palavra mais branda, a retomada da subversão – das CEBs é um fato muito importante. Se concretizado, poderá acentuar fortemente os rumos para a esquerda que vêm sendo impulsionados no Brasil pelos últimos governos, sobretudo tendo em vista que o MST tem fracassado em suas tentativas de revolucionar o campo. Por que então esse silêncio da mídia, inclusive da mais esquerdista, sobre as conclusões do Congresso?

Para desvendar esse mistério, pareceu-nos que o melhor era ir às fontes. Fomos então consultar o próprio site do Congresso das CEBs, intitulado Intereclesial das CEBs, e outros ligados ao tema. E a matéria abundante que lá encontramos é altamente esclarecedora. Trata-se de um marxismo tão debandado, de um comunismo tão assustador, que publicá-lo na grande imprensa poderia produzir rejeições veementes e dar lugar, talvez, a uma reedição do livro de Plinio Corrêa de Oliveira, que se mostra mais atual do que nunca. Foi mais estratégico reservar aos iniciados o que se passou em Juazeiro naqueles dias.

Trata-se evidentemente de uma hipótese, mas ela se amolda tão bem à realidade, que é difícil não se deixar seduzir por ela. Para que o leitor possa julgar por si mesmo, dou aqui uma amostragem do que encontrei, sempre citando as fontes para os que quiserem aprofundar-se no tema.

Banho de religiosidade para disfarçar o marxismo

Falam essas fontes da presença de cinco mil pessoas, incluindo 72 bispos, 232 padres e 145 religiosos. A escolha de Juazeiro do Norte não foi ocasional. Apesar do apoio eclesiástico, as CEBs sempre foram tidas como pouco católicas, mais se parecendo a um braço religioso do Partido Comunista do que outra coisa. Ora, Juazeiro do Norte tem sido o berço de uma devoção popular ao Padre Cícero (1844-1934), que chegou a ser prefeito da cidade em 1911 e é tido por muitos na região como santo. Realizar o congresso em Juazeiro seria um meio de mergulhar as CEBs num banho de religiosidade para tentar disfarçar seu ranço marxista.

A já mencionada Irmã Tea Frigerio, presente no congresso, destacou a importância da realização do Intereclesial na terra do padre Cícero: “Aqui se encontram duas realidades fortemente significativas para a Igreja do Brasil: a religiosidade popular que sustenta a vida do povo nos seus sofrimentos e as CEBs, mandacarú que resiste como modo de ser Igreja. Esses dois braços do povo brasileiro expressam duas maneira de viver a fé: a Romaria de padre Cícero dá voz à fé do povo pobre e excluído e as CEBs que fazem memória de um jeito diferente de ser Igreja. Estes dois braços se encontraram para se fortalecer e se enriquecer reciprocamente”.(3)

As Comunidades Eclesiais de Base não são católicas

O conhecido dominicano Frei Betto, por sua vez, deixa claro que as CEBs não são um movimento católico, pois “ressalta que nas CEBs que ele conhece tem gente do candomblé e até gente que não tem fé, mas gosta de frequentar a comunidade, ‘As CEBs são muito mais interreligiosas do que ecumênicas’”.(4)

Tal assertiva é, a seu modo, ratificada pelos representantes da Guatemala ao encontro: “A oração coordenada pelos representantes da Guatemala trouxe pensamentos de dom Oscar Romero, martirizado em El Salvador e de Maria Montoya, santa colombiana. ‘Fora da Igreja também toda a pessoa que luta pela justiça, toda a pessoa que busca reivindicações justas em um ambiente injusto, está trabalhando pelo Reino de Deus e pode ser que não seja cristão. A Igreja não abarca todo o Reino de Deus…’, foi uma das reflexões de Romero recordadas”.(5)

Apoio episcopal às Comunidades Eclesiais de Base

Num texto em que comentam o documento do Papa Francisco para o Encontro das CEBs, o Pe. José Marins e a Ir. Teolide Maria Trevisan alegram-se por não terem sido objeto de correções nem de suspeitas: “Imediatamente se adverte que o documento [de Francisco] nos inunda com um ‘perfume’ característico e intenso de alegria, confiança, amizade e não de correções ou suspeitas”.(6)

Os bispos presentes quiseram consignar num documento seu apoio ao que ali se passava. Em carta aos participantes, assim se expressaram: “Nós, bispos participantes do 13º Intereclesial de CEBs, em número de setenta e dois [...] Muito nos sensibilizaram os gritos dos excluídos que ecoaram neste 13º intereclesial: gritos de mulheres e jovens que sofrem com a violência e de tantas pessoas que sofrem as consequências do agronegócio, do desmatamento, da construção de hidrelétricas, da mineração, das obras da copa do mundo, da seca prolongada no nordeste, do tráfico humano, do trabalho escravo, das drogas, da falta de planejamento urbano que beneficie os bairros pobres; de um atendimento digno para a saúde [...] Que não se cansem de ser rosto da Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas e não de uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças, como nos exorta o querido Papa Francisco (cf. EG 49)”(7).

Nova concepção de martírio…

Houve também uma celebração dos Mártires e Profetas. Presidiu-a dom Edson Damian, bispo de São Gabriel da Cachoeira (AM), que exaltou a “vontade teimosa de seguir anunciando o Reino, contra o vento e a maré do anti-reino neoliberal. [...] Do chão das CEBs é que surgiram os profetas e os mártires”. Foi cantado durante a celebração um “Pai Nosso dos Mártires” que dizia “Pai nosso revolucionário, parceiro dos pobres, Deus dos oprimidos”. Quem foram os mártires homenageados? São Paulo? São Pedro? Tantos mártires canonizados? Não. “Santo Dias, dom Helder Câmara, Sepé Tiarajú, Marçal Guarani, Nísio Gomes, João Caleri, Irmã Dorothy Stang, Margarida Alves, Chico Mendes, Oscar Romero, Josimo Tavares, Ezequiel Ramin, padre Cícero Romão, entre outros”.(8)

Anti-capitalismo e anti-Missa

Uma das palestras mais reveladoras da doutrina e do espírito que animam as CEBs foi o estudo apresentado no congresso pelo sociólogo Pedro A. Ribeiro de Oliveira — autor de obras como Fé e Política: fundamentos (2004), Religião e dominação de classe (1985) — e reproduzido por Jaime C. Patias no artigo Análise de conjuntura social e eclesial aponta caminhos para as CEBs.(9)

O sociólogo aponta para “o esgotamento do ‘sistema mundo’, fundado na economia capitalista”. Qual economia deveria seguir-se? A cubano-socialista?

Estaríamos presentemente, segundo ele, numa “época de profundas transformações, mas também da caça às bruxas (e aos hereges) como na idade média”. Quem são os perseguidos hoje em dia por essa nova caça às bruxas? O sociólogo responde: “Hoje são caçados terroristas, bandidos, traficantes e outros marginais vistos como responsáveis por esse mal-estar. É como se sua morte ou seu ‘apodrecimento’ na prisão fosse um sacrifício purificador para trazer de volta a tranquilidade do passado”. O texto é desconcertante! Deveria haver liberdade para os terroristas, traficantes, bandidos? A polícia deveria deixá-los livres? Ou seria melhor nem haver polícia? É para lá que parecem caminhar as CEBs!

Mas há mais, caro leitor. Sabe quem seria responsável pela presente evasão dos fiéis das sagradas fileiras da Igreja Católica? Não pense nos males que se seguiram ao último Concílio, não pense na livre difusão de “verdadeiras heresias”, segundo denunciou João Paulo II. Nada disso. Pasme, mas a responsável pela evasão dos fiéis seria a Missa católica, com seu sentido profundo de renovação do sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo.

“Pedro de Oliveira conta que acompanhou uma pesquisa na arquidiocese de Belo Horizonte e percebeu que a questão chave é a concepção de missa. ‘Nos últimos 30 anos, nos habituamos [nas CEBs e congêneres] com as celebrações dominicais sem padre e a entender a missa como a memória da Ceia de Jesus e não como um Santo Sacrifício. Ora, quando a gente vai ver o ritual da missa, ela é apresentada como sacrifício’, observou e explicou o que considera a principal razão da evasão dos católicos da Igreja. O sacrifício só é necessário para a reparação dos pecados e eu desconfio que o nosso povo não tenha tanta consciência de ser pecador para fazer tanta reparação. 

Então, aquele ritual que é de sacrifício, não é entendido pelas pessoas que acabam se afastando [...] ‘Então se, neste momento, a massa se afastar da Igreja é normal’, concluiu”.
O que faz então o sacerdote, o bispo, nas tais celebrações? “Nas CEBs o povo não faz muita diferença se é o padre que celebra a missa ou se são os ministros que fazem a celebração da Palavra”.

Não houve renúncia a Satanás?

Na Missa de encerramento, “que foi presidida por dom Fernando Panico, bispo de Crato, ladeado por vários outros bispos, padres e diáconos [...] o povo renovou as promessas do batismo e seus compromissos, dentre os quais, guardar os conselhos deixados pelo padre Cícero: denunciar a cobiça do poder e a devastação da terra, a degradação do meio ambiente, combater a miséria. 

Anunciar a economia solidária, numa sociedade onde todos tenham oportunidades, casa, escola, saúde, segurança, festa e felicidade”.(10) Não consta no texto que nessa renovação dos votos do Batismo tenha havido a oração habitual na Santa Igreja de renunciar a Satanás, suas pompas e suas obras!

O Papa, um simples primaz?

A mensagem do Papa Francisco mereceu uma resposta dos participantes, aprovada por aclamação. O texto é dirigido ao “querido irmão, bispo de Roma e pastor primaz da unidade”. Primaz da unidade? O que significa isso? Ele não tem poder sobre os bispos, é simplesmente um “irmão”, um “primaz”? E de que unidade se trata? Da unidade da Igreja ou de uma unidade cosmo-panteísta que inclui a tudo e a todos?

Quem escreve? “Nós, cristãos e cristãs, leigos das comunidades eclesiais de base, agentes de pastoral, religiosos/as, diáconos, padres e bispos, assim como irmãos de Igrejas evangélicas e de outras tradições religiosas”. Convém notar o teor profundamente revolucionário da enumeração. 

Em primeiro lugar os leigos, depois os diáconos, os padres e os bispos! Tudo isso é pensado para inverter a hierarquia na Igreja. O Papa não é tratado de Santidade, mas simplesmente de “senhor”, como qualquer pessoa mais velha. O que agradecem? “Nós lhe agradecemos por fazer do ministério papal uma profecia contra a economia de exclusão, que hoje domina o mundo”.(11)

Uma corrente de pessoas cada vez mais se intoxicando

É impossível ler todas essas enormidades sem fazer justiça ao acerto profético de Plínio Corrêa de Oliveira, que já em seu primeiro livro, publicado em 1943 (Em Defesa da Ação Católica), previa os desdobramentos funestos que teria a crise na Igreja se os males internos não fossem atalhados.

Não cabe neste simples artigo um elenco de tudo quanto nessa memorável obra denota a antevisão do autor a respeito do que hoje ocorre. A partir das primeiras ideias revolucionárias que então germinavam na Ação Católica, o itinerário para os dias de hoje é claramente apontado:

“As pessoas que aceitaram algumas destas ideias costumam apoiar e aplaudir as que caminharam mais avante no mesmo terreno, revelando singular entusiasmo pelos que chegaram às posições ideológicas mais radicais, e uma real desprevenção de espírito para perceber os erros flagrantes que nestas posições se notam. Em outros termos, estamos em presença de uma ideia em marcha, ou melhor, de uma corrente de homens em marcha atrás de uma ideia, nela se radicando cada vez mais, e de seu espírito cada vez mais se intoxicando”.(12)

Que Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, proteja nossa Nação de todas as heresias e a faça voltar aos caminhos traçados pelo bem-aventurado Anchieta, Nóbrega e tantos outros heróis da fé.

Fonte: http://acaojovempelaterradesantacruz.blogspot.com.br/

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